Lady Macbeth (Claudio Fontana), Macbeth (Marcello Antony)
Shakespeare
(foto João Caldas)
CRITICA TEATRAL
IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
Acho que fui a única crítica do Rio de Janeiro que gostou do "Macbeth" dirigido por Gabriel Villela, e aqui apresentado no fim de semana (dias 10 a 14 de outubro, no Teatro dos 4). Enfim, o julgamento crítico acaba ficando algo muito subjetivo. Vamos aos pontos positivos: antes de tudo, a segurança dos atores, a impostação da voz, a sua movimentação. Francesca Della Monica, com a sua "antropologia da voz", diz-nos: "Em Macbeth, Shakespeare renuncia à convenção aristotélica de espaço único, fazendo explodir a ação em uma multiplicidade de ambientes físicos e simbólicos".
Na montagem de Villela, o simbólico é enfatizado pelo diretor. A tal ponto, que causa estranheza aos mais ortodoxos admiradores do dramaturgo, pois muitas vezes a palavra, neste espetáculo, é trocada pelo gesto enfático. Unindo-se à proposta, a iluminação de Wagner Freire enfatiza o clima simbólico, com suas lamparinas e pontos de luz. O trabalho de movimento de Ricardo Rizzo se harmoniza com o todo, estabelecendo o desempenho preciso dos atores. Ainda sobre a ficha técnica: a ambientação musical de Ernani Maletta capta o ritmo da palavra falada - e como os atores de Villela externam bem esse ritmo! e o responsável pela trilha sonora, ainda o diretor Villela, tem a sensibilidade de colocar, pontuando o final da tragédia, a modernidade incontestável de uma frase musical de Jim Morrison na música "The End", repetindo o refrão: "This is the end, my friend".
Tocamos em seis pontos importantes que dão força ao espetáculo. O sétimo (não obrigatoriamente nessa ordem) é o figurino, de Shicó do Mamulengo e Gabriel Villela, onde funciona perfeitamente uma estética que une Oriente e Ocidente, neste país cosmopolita que é o Brasil. É a marca registrada do diretor: das cabeças coroadas da velha Europa às mais ousadas representações do barroco nordestino brasileiro. Dessa vez foram destacados os colarinhos engomados de um passado longínquo. Usanças de uma época, são concessões aos velhos símbolos. Quanto ao mais, temos os bordados espelhados da Índia, os adereços estilizados de Shicó, coroas, guilros e arames, representando as "tecedeiras" do nordeste brasileiro. Eles enfeitam as cabeças coroadas. São rendas, teares, agulhas, que se transformam em espadas, em cetros - em palácios, estabelecendo uma dinâmica que dá vida ao espetáculo. E tudo termina em rock.
Aliás, depois do Macbeth de Fauzi Arap (onde os atores declamavam Shakespeare ao som de rock!), nada mais provocador apareceu nos palcos brasileiros em relação a Macbeth, ultimamente. O espetáculo de Villela está recheado de símbolos, talvez por isso tanta liberdade com o texto (tradução de Marcos Daud), pois os gestos e os olhares substituem as enfatizadas passagens de ação e horror. O assassinato dos filhos e da esposa de Macduff (Helio Cicero) fica, assim, só na vingança. Não há o habitual impacto da narrativa com a chegada dos assassinos, e o terror de Lady Macduff, pois os fatos, simplesmente, só foram relatados! Talvez o horror da nossa imaginação seja mais terrível que a cena em si. Talvez. Esse corte pode ser considerado (por alguns) a grande falha do espetáculo. Mas foi assim que o diretor pensou a ação que iria contar. Mexer com o texto também faz parte das encenações bem sucedidas. Outra foi a bondade de Duncan (Helio Cicero) ser confundida com placidez. Entretanto, Duncan é apresentado, neste espetáculo, como um Rei simpático e cheio de urbanidade.
Os símbolos, Lady Macbeth (Claudio Fontana), os carrega com mais desenvoltura entre seus véus. Inesquecível a simbólica cena dos dois esposos, esvoaçando como dois morcegos noturnos, ao encontro de sua própria desgraça. O sangue que escorre desse trono fracassado é representado por fios de seda caindo das mãos ensanguentadas dos esposos (e das mãos do assassinado Duncan). Cenas extremamente visuais, como visuais são as marcações dos atores, dirigidos por César Augusto, Ivan Andrade e Rodrigo Audi, com supervisão geral de Gabriel Villela. O diretor seguiu à risca as orientações da Cia "Os Homens do Rei" (só para lembrar: Jaime I, sucessor de Elizabeth, filho de Mary Stuart, era também um apaixonado pelo teatro!). Naquele tempo não havia mulheres no palco. No Macbeth de Villela também não. E Claudio Fontana faz com galhardia o papel do efebo.
Entre as cenas inesquecíveis temos ainda a da morte da Lady, voltando ao útero da criação, útero esse encarnado na figura do autor/narrador (Shakespeare?), interpretado por Carlos Morelli. Ele é o dono do destino de Lady Macbeth. O oitavo ponto culminante do espetáculo é a cenografia de Márcio Vinicius. Enquanto no The Globe eram feitas passagens com telões indicando os lugares percorridos e as cenas declamadas, Márcio Vinicius coloca a ação entre teares, esculturas representando árvores, muita renda e tecidos nordestinos, caixotes, malas, e bancos. O cenário é provocante, instigante, é um campo de batalha desarrumado, como é desarrumado o espírito da peça. É a região onde tudo pode acontecer. Sim, dirão os que me lêem agora, há nesta crítica muita descrição da ficha técnica, mas Shakespeare é texto... é interpretação.
Pois bem, falta pouco, já falei do trabalho de Francesca com a antropologia da voz. Falarei agora da "força de intenção", de Babaya, preparadora vocal, e a projeção da voz dos atores. Diz Babaya: "cuido da palavra [...] a montagem proposta por Gabriel Villela tem traços épicos [...] e isso exige uma projeção vocal de grande intensidade, mas o diretor quer delicadeza, simplicidade na interpretação e evitar os "exageros". Perfeito. E percebemos, como resultado de seu trabalho, a respiração de Marcello Antony (Macbeth), chegando a surpreender o acerto nas inflexões do personagem: perplexidade, fúria, ambição, medo - tudo isso representado pelo tom da voz e a convincente expressão facial, sem exageros. Sem querer parecer iconoclasta, digo que Gabriel Villela foi ao ponto, com essa criação do guerreiro infame: os demais participantes, com exceção da Lady Macbeth, parecem coadjuvantes frente à magnitude desse excelente personagem. Destacam-se, além do casal, as três bruxas que desafiam o público, interpretadas por Marco Furlan, José Rosa e Rogerio Brito.
Há também atores que marcam seus personagens, neste Macbeth, e damos como exemplo o Banquo de Marco Antonio Pâmio; o Malcolm, de Marco Furlan, e os vários papéis em que se desdobra Rogerio Brito, principalmente o porteiro da noite, com as sacudidelas sonoras de ombros, guizos e moedas, e seu humor, - abrindo as tão aclamadas intervenções do povo nas peças de Shakespeare. É sua, também, a interpretação do velho, que exclama: "Os poderes celestiais estão demonstrando o seu desagrado". Essa constatação é lamentada por todos os personagens "do bem", na tragédia. Entretanto, o "diretor geral" teve a delicadeza de não fazer nenhuma ligação com as coisas do nosso país, demonstrando com isso sensibilidade, ao mesmo tempo em que soube atender aos insights psicológicos do autor. Única falha, para quem gosta de efemérides assustadoras: as aparições do fantasma "não" têm os apelos aterrorizantes de montagens anteriores, embora a perplexidade e o terror estejam estampados nas expressões do Rei usurpador.
A união São Paulo/Minas Gerais esteve, mais uma vez, bem representada. É sempre um prazer ver os espetáculos assinados por Gabriel Villela. Desejamos um pronto regresso de sua Cia ao Rio de Janeiro, pois muita gente não teve oportunidade de assistir a esse Macbeth!
http://idavicenzia.blogspot.com.br/2012/10/macbeth.html
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Lady Macbeth (Claudio Fontana), Macbeth (Marcello Antony)
Shakespeare
(foto João Caldas)
CRITICA TEATRAL
IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
Acho que fui a única crítica do Rio de Janeiro que gostou do "Macbeth" dirigido por Gabriel Villela, e aqui apresentado no fim de semana (dias 10 a 14 de outubro, no Teatro dos 4). Enfim, o julgamento crítico acaba ficando algo muito subjetivo. Vamos aos pontos positivos: antes de tudo, a segurança dos atores, a impostação da voz, a sua movimentação. Francesca Della Monica, com a sua "antropologia da voz", diz-nos: "Em Macbeth, Shakespeare renuncia à convenção aristotélica de espaço único, fazendo explodir a ação em uma multiplicidade de ambientes físicos e simbólicos".
Na montagem de Villela, o simbólico é enfatizado pelo diretor. A tal ponto, que causa estranheza aos mais ortodoxos admiradores do dramaturgo, pois muitas vezes a palavra, neste espetáculo, é trocada pelo gesto enfático. Unindo-se à proposta, a iluminação de Wagner Freire enfatiza o clima simbólico, com suas lamparinas e pontos de luz. O trabalho de movimento de Ricardo Rizzo se harmoniza com o todo, estabelecendo o desempenho preciso dos atores. Ainda sobre a ficha técnica: a ambientação musical de Ernani Maletta capta o ritmo da palavra falada - e como os atores de Villela externam bem esse ritmo! e o responsável pela trilha sonora, ainda o diretor Villela, tem a sensibilidade de colocar, pontuando o final da tragédia, a modernidade incontestável de uma frase musical de Jim Morrison na música "The End", repetindo o refrão: "This is the end, my friend".
Tocamos em seis pontos importantes que dão força ao espetáculo. O sétimo (não obrigatoriamente nessa ordem) é o figurino, de Shicó do Mamulengo e Gabriel Villela, onde funciona perfeitamente uma estética que une Oriente e Ocidente, neste país cosmopolita que é o Brasil. É a marca registrada do diretor: das cabeças coroadas da velha Europa às mais ousadas representações do barroco nordestino brasileiro. Dessa vez foram destacados os colarinhos engomados de um passado longínquo. Usanças de uma época, são concessões aos velhos símbolos. Quanto ao mais, temos os bordados espelhados da Índia, os adereços estilizados de Shicó, coroas, guilros e arames, representando as "tecedeiras" do nordeste brasileiro. Eles enfeitam as cabeças coroadas. São rendas, teares, agulhas, que se transformam em espadas, em cetros - em palácios, estabelecendo uma dinâmica que dá vida ao espetáculo. E tudo termina em rock.
Aliás, depois do Macbeth de Fauzi Arap (onde os atores declamavam Shakespeare ao som de rock!), nada mais provocador apareceu nos palcos brasileiros em relação a Macbeth, ultimamente. O espetáculo de Villela está recheado de símbolos, talvez por isso tanta liberdade com o texto (tradução de Marcos Daud), pois os gestos e os olhares substituem as enfatizadas passagens de ação e horror. O assassinato dos filhos e da esposa de Macduff (Helio Cicero) fica, assim, só na vingança. Não há o habitual impacto da narrativa com a chegada dos assassinos, e o terror de Lady Macduff, pois os fatos, simplesmente, só foram relatados! Talvez o horror da nossa imaginação seja mais terrível que a cena em si. Talvez. Esse corte pode ser considerado (por alguns) a grande falha do espetáculo. Mas foi assim que o diretor pensou a ação que iria contar. Mexer com o texto também faz parte das encenações bem sucedidas. Outra foi a bondade de Duncan (Helio Cicero) ser confundida com placidez. Entretanto, Duncan é apresentado, neste espetáculo, como um Rei simpático e cheio de urbanidade.
Os símbolos, Lady Macbeth (Claudio Fontana), os carrega com mais desenvoltura entre seus véus. Inesquecível a simbólica cena dos dois esposos, esvoaçando como dois morcegos noturnos, ao encontro de sua própria desgraça. O sangue que escorre desse trono fracassado é representado por fios de seda caindo das mãos ensanguentadas dos esposos (e das mãos do assassinado Duncan). Cenas extremamente visuais, como visuais são as marcações dos atores, dirigidos por César Augusto, Ivan Andrade e Rodrigo Audi, com supervisão geral de Gabriel Villela. O diretor seguiu à risca as orientações da Cia "Os Homens do Rei" (só para lembrar: Jaime I, sucessor de Elizabeth, filho de Mary Stuart, era também um apaixonado pelo teatro!). Naquele tempo não havia mulheres no palco. No Macbeth de Villela também não. E Claudio Fontana faz com galhardia o papel do efebo.
Entre as cenas inesquecíveis temos ainda a da morte da Lady, voltando ao útero da criação, útero esse encarnado na figura do autor/narrador (Shakespeare?), interpretado por Carlos Morelli. Ele é o dono do destino de Lady Macbeth. O oitavo ponto culminante do espetáculo é a cenografia de Márcio Vinicius. Enquanto no The Globe eram feitas passagens com telões indicando os lugares percorridos e as cenas declamadas, Márcio Vinicius coloca a ação entre teares, esculturas representando árvores, muita renda e tecidos nordestinos, caixotes, malas, e bancos. O cenário é provocante, instigante, é um campo de batalha desarrumado, como é desarrumado o espírito da peça. É a região onde tudo pode acontecer. Sim, dirão os que me lêem agora, há nesta crítica muita descrição da ficha técnica, mas Shakespeare é texto... é interpretação.
Pois bem, falta pouco, já falei do trabalho de Francesca com a antropologia da voz. Falarei agora da "força de intenção", de Babaya, preparadora vocal, e a projeção da voz dos atores. Diz Babaya: "cuido da palavra [...] a montagem proposta por Gabriel Villela tem traços épicos [...] e isso exige uma projeção vocal de grande intensidade, mas o diretor quer delicadeza, simplicidade na interpretação e evitar os "exageros". Perfeito. E percebemos, como resultado de seu trabalho, a respiração de Marcello Antony (Macbeth), chegando a surpreender o acerto nas inflexões do personagem: perplexidade, fúria, ambição, medo - tudo isso representado pelo tom da voz e a convincente expressão facial, sem exageros. Sem querer parecer iconoclasta, digo que Gabriel Villela foi ao ponto, com essa criação do guerreiro infame: os demais participantes, com exceção da Lady Macbeth, parecem coadjuvantes frente à magnitude desse excelente personagem. Destacam-se, além do casal, as três bruxas que desafiam o público, interpretadas por Marco Furlan, José Rosa e Rogerio Brito.
Há também atores que marcam seus personagens, neste Macbeth, e damos como exemplo o Banquo de Marco Antonio Pâmio; o Malcolm, de Marco Furlan, e os vários papéis em que se desdobra Rogerio Brito, principalmente o porteiro da noite, com as sacudidelas sonoras de ombros, guizos e moedas, e seu humor, - abrindo as tão aclamadas intervenções do povo nas peças de Shakespeare. É sua, também, a interpretação do velho, que exclama: "Os poderes celestiais estão demonstrando o seu desagrado". Essa constatação é lamentada por todos os personagens "do bem", na tragédia. Entretanto, o "diretor geral" teve a delicadeza de não fazer nenhuma ligação com as coisas do nosso país, demonstrando com isso sensibilidade, ao mesmo tempo em que soube atender aos insights psicológicos do autor. Única falha, para quem gosta de efemérides assustadoras: as aparições do fantasma "não" têm os apelos aterrorizantes de montagens anteriores, embora a perplexidade e o terror estejam estampados nas expressões do Rei usurpador.
A união São Paulo/Minas Gerais esteve, mais uma vez, bem representada. É sempre um prazer ver os espetáculos assinados por Gabriel Villela. Desejamos um pronto regresso de sua Cia ao Rio de Janeiro, pois muita gente não teve oportunidade de assistir a esse Macbeth!
http://idavicenzia.blogspot.com.br/2012/10/macbeth.html
O Macbeth coreografado de Villela
Publicado em 30/10/2012 | Helena Carnieri Fale conosco Comunicar erros RSS Imprimir Enviar por email Receba notícias pelo celular Receba boletins Aumentar letra Diminuir letra A coreografia milimétrica do Macbeth, de Shakespeare, que Gabriel Villela apresentou neste fim de semana, no Teatro Bom Jesus, confere ao espetáculo o título de peça bem feita – num bom sentido, não como no século 19, quando era supervalorizada a técnica.
Como é bom observar o trabalho duro de alguém que partiu de um conceito e imprimiu sua marca a um dos textos mais relevantes da história da dramaturgia mundial.
Saiba mais
Ouça entrevista de Marcello Antony sobre Macbeth
Villela está no palco desde o cenário, no qual um totem de teares é ladeado por bombonas de água azul claras, logo atrás de uma fileira de cadeiras que lembram um auditório de universidade federal.
Os figurinos também não ignoram seu criador, que, ao lado do artista potiguar Shicó do Mamulengo, mesclou bermudas de sarja com jaquetas de couro, deu ao protagonista casaco com capuz e a sua lady túnicas sedosas com coroa feita de coleira.
A mescla de elementos novos e antigos, como uma lamparina ao lado de antenas, confere a estética de Villela a mais um shakespeare. A escada sobre a qual Macbeth se empoleira remete ao seu Romeu e Julieta, que hoje, 20 anos após a estreia excursiona com o Grupo Galpão.
A escolha por um narrador, que, como no prólogo de Henrique V, solicita da plateia que imagine, eficazmente transporta a peça do terreno da interpretação para algo diferente, que tem a ver com o distanciamento proposto por Bertolt Brecht, mas talvez também com o próprio teatro elisabetano. No lugar das interações vociferantes entre atores, vemos quase que uma marcação do espetáculo, como se o ator entrasse em cena e pensasse “eu fico aqui e digo: tal e tal”.
O texto entregue quase que sem roupagem alguma é capaz de confundir o espectador. Esse ator está imitando um locutor? Não encarnou o personagem?
Percebe-se que foi um trabalho de retirar emoção mais do que de buscá-la, especialmente para com a dupla de atores que vive o casal protagonista, Marcello Antony e Claudio Fontana – só há homens no palco, como nos tempos da rainha Elisabete.
Sobrenatural
Numa adaptação de Macbeth, busca-se a surpresa: como serão resolvidas as cenas com bruxas, fantasma, aparição de objetos em pleno ar e árvores que se movem?
As três irmãs viram fiandeiras e influenciadoras do destino e da vontade humana, chacoalhando a escalada trágica com humor debochado. O acúmulo de papéis entre os atores acelera o ritmo da montagem. Interpretadas por José Rosa, Marco Furlan e Rogério Brito, as bruxas se transformam de seres sobrenaturais em mensageiros num piscar de olhos, por vezes modificando um adereço, outras, apenas o traquejo corporal. É uma homenagem ao teatro.
É chocante – para muitos, um alívio – ver a tragédia se passar em meros 90 minutos, e inevitável imaginar que houve redução de trechos importantes. Mas a tradução de Marcos Daud objetiva a plena compreensão. Onde Bárbara Heliodora colocou um “gato pescador”, ele traz “você está parecendo o gato do provérbio, que queria o peixe sem molhar as patas”.
O momento em que o espectador sente um “pulo na fita” é na passagem do Macbeth hesitante para o carniceiro, após o assassinato do rei. Falta angústia – mas, com ela, o espectador se aproximaria demais para uma obra que rejeita a ilusão do palco.
Gazeta do povo
Publicado em 30/10/2012 | Helena Carnieri Fale conosco Comunicar erros RSS Imprimir Enviar por email Receba notícias pelo celular Receba boletins Aumentar letra Diminuir letra A coreografia milimétrica do Macbeth, de Shakespeare, que Gabriel Villela apresentou neste fim de semana, no Teatro Bom Jesus, confere ao espetáculo o título de peça bem feita – num bom sentido, não como no século 19, quando era supervalorizada a técnica.
Como é bom observar o trabalho duro de alguém que partiu de um conceito e imprimiu sua marca a um dos textos mais relevantes da história da dramaturgia mundial.
Saiba mais
Ouça entrevista de Marcello Antony sobre Macbeth
Villela está no palco desde o cenário, no qual um totem de teares é ladeado por bombonas de água azul claras, logo atrás de uma fileira de cadeiras que lembram um auditório de universidade federal.
Os figurinos também não ignoram seu criador, que, ao lado do artista potiguar Shicó do Mamulengo, mesclou bermudas de sarja com jaquetas de couro, deu ao protagonista casaco com capuz e a sua lady túnicas sedosas com coroa feita de coleira.
A mescla de elementos novos e antigos, como uma lamparina ao lado de antenas, confere a estética de Villela a mais um shakespeare. A escada sobre a qual Macbeth se empoleira remete ao seu Romeu e Julieta, que hoje, 20 anos após a estreia excursiona com o Grupo Galpão.
A escolha por um narrador, que, como no prólogo de Henrique V, solicita da plateia que imagine, eficazmente transporta a peça do terreno da interpretação para algo diferente, que tem a ver com o distanciamento proposto por Bertolt Brecht, mas talvez também com o próprio teatro elisabetano. No lugar das interações vociferantes entre atores, vemos quase que uma marcação do espetáculo, como se o ator entrasse em cena e pensasse “eu fico aqui e digo: tal e tal”.
O texto entregue quase que sem roupagem alguma é capaz de confundir o espectador. Esse ator está imitando um locutor? Não encarnou o personagem?
Percebe-se que foi um trabalho de retirar emoção mais do que de buscá-la, especialmente para com a dupla de atores que vive o casal protagonista, Marcello Antony e Claudio Fontana – só há homens no palco, como nos tempos da rainha Elisabete.
Sobrenatural
Numa adaptação de Macbeth, busca-se a surpresa: como serão resolvidas as cenas com bruxas, fantasma, aparição de objetos em pleno ar e árvores que se movem?
As três irmãs viram fiandeiras e influenciadoras do destino e da vontade humana, chacoalhando a escalada trágica com humor debochado. O acúmulo de papéis entre os atores acelera o ritmo da montagem. Interpretadas por José Rosa, Marco Furlan e Rogério Brito, as bruxas se transformam de seres sobrenaturais em mensageiros num piscar de olhos, por vezes modificando um adereço, outras, apenas o traquejo corporal. É uma homenagem ao teatro.
É chocante – para muitos, um alívio – ver a tragédia se passar em meros 90 minutos, e inevitável imaginar que houve redução de trechos importantes. Mas a tradução de Marcos Daud objetiva a plena compreensão. Onde Bárbara Heliodora colocou um “gato pescador”, ele traz “você está parecendo o gato do provérbio, que queria o peixe sem molhar as patas”.
O momento em que o espectador sente um “pulo na fita” é na passagem do Macbeth hesitante para o carniceiro, após o assassinato do rei. Falta angústia – mas, com ela, o espectador se aproximaria demais para uma obra que rejeita a ilusão do palco.
Gazeta do povo
O Macbeth de Gabriel Villela
No ano em que venho encarando como missão assistir a no mínimo uma peça por mês, não poderia faltar uma montagem de Shakespeare – ainda que, em abril, tenha visto o divertidíssimo “ppp@wllmshkspr.com.br”, dos Parlapatões.
Ontem vi a versão de “Macbeth” do diretor Gabriel Villela, um dos brasileiros mais gabaritados na obra do Bardo.
No limite entre a afetação e a ousadia, Villela construiu em seu “Macbeth” um visual hipnótico, que mistura o clássico e o moderno (trajes de época com all-stars, num exemplo breve) para contar a tragédia do personagem principal, que motivado por visões sobrenaturais, muita ambição e uma esposa maquiavélica, chega ao trono de Rei da Escócia.
O difícil papel-título é interpretado por Marcello Antony com uma impostação que em outras circunstâncias poderia incomodar, mas acaba se encaixando bem na proposta da peça. Seu semblante está sempre entre o decidido e o amedrontado, e são as nuances entre esses dois lados que movem a trama.
Numa escolha de fato interessante, o diretor escala um ator (Cláudio Fontana) para fazer Lady Macbeth, um dos personagens mais icônicos não apenas da obra de Shakespeare, mas da história do teatro. A opção justifica-se não apenas por ser uma citação direta aos tempos da encenação original, quando apenas homens podiam interpretar, mas também para nos lembrar que a força de um personagem vai além do gênero. E é visível o nível de entrega de Cláudio para construir uma poderosa Lady Macbeth.
Não há como negar, porém, que desafiando a velha máxima que diz que o teatro é a arte do ator por excelência, quem brilha mais nesse “Macbeth” em cartaz até 19 de agosto no Teatro Vivo ainda são as soluções de Gabriel Vilella para buscar originalidade em um material que já foi feito e refeito inúmeras vezes desde 1611.
Na contramão da tendência atual que parece nos querer vender a ideia de que “quanto mais realista, melhor”, o diretor não nos deixa esquecer nem por um momento que estamos diante de um espetáculo: homens podem ser mulheres, agulhas de tricô podem ser espadas, barbante pode ser sangue, e por aí vai. E claro, William Shakespeare em mãos hábeis sempre dá gosto de ver.
http://cambioedesligo.blogspot.com.br/2012/07/o-macbeth-de-gabriel-villela.html
http://cambioedesligo.blogspot.com.br/2012/07/o-macbeth-de-gabriel-villela.html
De Francesca della Monica
O Atelier renascentista de Gabriel Villela
" Ambasciata teatrale" - Firenze
O atelier de Gabriel Villela é, ja por si, uma obra de teatro total onde a dramaturgia é um percurso de vida cujos fios, mais ou menos sutis, sao os tantos discursos deixados em suspenso da tradiçao.
Penso nesse originalissimo artista e no seu antepor aos ensaios de um espetaculo a “fabrica” (no sentido renascentista do termo) do atelier no qual serao paridas as formas corporais de personagens e ambientes, como à açao de chocar um ovo cosmico.
O germe de todos os fenomenos e do inteiro unverso se encontra ali e a casca do ovo representa os confins do espaço mundo, e o germe ocluso dentro é o simbolo do dinamismo inexaurivel da vida "in natura".
Um atelier de conhecimentos refinados e de sabia manifattura, que o inefavel da criaçao artistica torna nao repetitivos e sujeitos à surpresa.
Gabriel, como o filho do fabbricante de sinos de Andrej Rubliev, è herdeiro de uma sabedoria antiga que se revela, quase inesperada, somente no ultimo instante do processo criativo, sempre incidioso, mas ineroxabelmente coroado do som do sino, do gemito e das lagrimas da poesia e do despertar da palavra do artista depois do longo silencio claustral que antecipa o nascimento de um objeto de arte.
francesca della monica
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Marcello Antony traz "Macbeth" à Recife
A principio as datas confirmadas para as apresentações no Recife da peça Macbeth, protagonizada pelos atores Marcello Antony e Cláudio Fontana, seriam em setembro. Porém, houveram mudanças e agora as apresentações estão confirmadíssimas para os dias 16,17 e 18 de novembro, no Teatro de Santa Isabel.
Marcello Antony desembarca mês que vem no Recife com a peça Macbeth.
http://blogrecifeinfoco.blogspot.com.br/
24OUT 2012
Marcello Anotny vem ao Recife com a peça Macbeth
O ator Marcello Antony vem ao Recife com a sua peça “Macbeth”. O espetáculo será encenado nos dias 16, 17 e 18 de novembro no Teatro de Santa Isabel. O ator divide o palco com Claudio Fontana, intérprete de Lady Macbeth. Com direção de Gabriel Villela, a peça resgata resgatar uma prática da época em que foi escrita, no início do século 17, quando as mulheres ainda não atuavam e os papéis femininos eram interpretados por homens no teatro.
http://www.ehojepe.com.br/site/blog-detalhe.php?id=3568
O ator Marcello Antony vem ao Recife com a sua peça “Macbeth”. O espetáculo será encenado nos dias 16, 17 e 18 de novembro no Teatro de Santa Isabel. O ator divide o palco com Claudio Fontana, intérprete de Lady Macbeth. Com direção de Gabriel Villela, a peça resgata resgatar uma prática da época em que foi escrita, no início do século 17, quando as mulheres ainda não atuavam e os papéis femininos eram interpretados por homens no teatro.
http://www.ehojepe.com.br/site/blog-detalhe.php?id=3568
http://www.maisteatro.com/event/shakespeare.html
Shakespeare
Drama
Resumo
Quando: 16, 17 e 18/11/12
Dias: Sexta, Sábado e Domingo
Horário: Sexta e Sábado às 21:00 hs / Domingo às 20:00 hs
Ingresso: Plateia e Frisas - R$ 100,00 (inteira), R$ 50,00 (meia)/Camarotes - R$ 80,00 (inteira), R$ 40,00 (meia)
Censura: 12 anos
LOCAL
Teatro: Teatro de Santa Isabel
Como chegar »
Praça da República, s/nº,Santo Antônio, Recife, Pernambuco
Fone: (81) 3355-3323 / (81) 3355-3324
Galeria de Fotos
Descrição
Gabriel Villela dirige seu terceiro Shakespeare, Macbeth, só com atores homens, com Marcello Antony como Macbeth e Claudio Fontana como Lady Macbeth. Texto de William Shakespeare (de quem também já montou Romeu e Julieta e Ricardo III), tradução de Marcos Daud, a peça estreia dia 1º de junho no Teatro Vivo, em São Paulo. Para contar a tragédia da ambição de um homem que, devorado por sua natureza e instigado por sua impiedosa mulher, cede ao impulso assassino para cumprir o seu destino, Gabriel Villela monta Macbeth só com atores homens, como era feito na época de seu autor, Shakespeare. No elenco, Marcello Antony, Claudio Fontana, Helio Cicero, Marco Antônio Pâmio, Carlos Morelli, José Rosa, Marco Furlan, Rogerio Brito. A tradução de Marcos Daud, adaptada pelo diretor, será montada pela primeira vez. Daud encaminhou sua versão para Villela, que fez então cortes e adaptou o texto de 20 personagens para uma realidade de 8 atores em cena. “Introduzi o narrador, personagem inspirado na renascença inglesa, para que ele possa, periodicamente, reconstruir a história perante a plateia, convocar os personagens, decompor a fábula na sua essência e desenvolver a história. Ele narra o universo trágico de Macbeth”, fala o diretor. Experiência da voz, da palavra e trilha sonora Na opinião do diretor, Macbeth é um espetáculo formal, sóbrio, contido, voltado para a experiência da voz e da palavra. Para atingir essa qualidade, Gabriel Villela contou com a antropologia da voz da italiana Francesca Della Monica (pesquisadora de voz da Universidade de Firenze, que também trabalha em Pontedera, Itália), a direção de texto de Babaya e a musicalidade de cena de Ernani Maletta. Os três juntos desenvolveram um trabalho técnico fundamental, cuidadoso, fazendo a preparação vocal e a interpretação de texto, passando pela redescoberta e finalidade da voz. Esse método está impresso na cena. “Na formação do elenco, trabalhamos uma extensão vocal bem grande para que não ficássemos com uma impostação monótona dos timbres masculinos. É um espetáculo feito para uma audiência camerística, de 290 lugares e um palco relativamente pequeno, preenchido pelo principal elemento: a voz épica dos atores”, detalha Gabriel. A trilha sonora do espetáculo, de acordo com Gabriel Villela, é composta, em sua maior parte, por silêncios. “Eu não queria música desta vez, por isso cuidei da trilha sonora, feita mais por sons como o rufar de asas, o bater de sinos, sons finos sugeridos por Shakespeare.” A única música é um ária da ópera “Dido e Enéas”, de Purcell, cantada à cappella por Francesca Della Monica, no instante da morte de Lady Macbeth. Gabriel destaca, ainda, o caráter épico e a eloquência shakesperiana, com direito a tons lúdicos em algumas cenas. FIGURINO E CENÁRIO A pré-produção do ateliê de criação começou dois meses antes do início dos ensaios. É marca registrada do diretor Gabriel Villela cuidar dessa área com antecedência. O figurino, assinado em parceira por Gabriel Villela e Shicó do Mamulengo (que veio do Rio Grande do Norte especialmente para o trabalho), foi confeccionado com 30 malas antigas de couro e papelão, compradas em brechós e antiquários. Desmontadas, foram recortadas e transformadas em indumentárias de guerra, como coletes, armaduras e escudos. “Ao mesmo tempo em que criamos um figurino que remete à guerra, buscamos fazer uma brincadeira lúdica e artesanal em cima do conceito popular de transformar um objeto em outro, transformar uma mala em uma armadura de guerra”, explica Gabriel. Para remeter à nobreza dos personagens foi utilizada uma mistura de pedras e metais. A complementação foi feita com saias de tapeçarias antigas trazidas por Gabriel de diversas partes do mundo. Gabriel optou por uma cartela de cores mais sombria: “Não se trata de uma tragédia em preto em branco, tem cores, mas é mais sinistra, mais soturna.” O cenário, assinado por Márcio Vinícius, traz dois teares da cultura de tecelagem de manufatura de Minas Gerais (resultado da desconstrução de cinco teares), um sobre o outro, compondo um tótem cênico com cinco pilares, que preenche a cena. Esses teares fazem parte da mitologia das três parcas gregas que fiam, tecem e cortam, simbolizando os três instantes do homem: nascimento, vida e morte. É um objeto único, vertical, forte, totênico e que assume a imagem do grande “mecanismo do mundo” (Jan Kot), diz o diretor. A luz é de Wagner Freire e a direção de movimento é de Ricardo Rizzo. Os adereços são de Shicó do Mamulengo. SINOPSE Macbeth conta a história de um homem incapaz de lidar com sua natureza ambiciosa e que, instigado por sua cruel esposa, passa de herói a tirano. Após salvar a Escócia e começar a galgar os degraus do grande mecanismo do poder, Macbeth, que agora se vê mais próximo do trono, interfere na ordem natural dos acontecimentos e cede a seu impulso homicida, assassinando o rei escocês para tomar sua coroa. Como se outro crime pudesse limpar a mancha pelo assassinato cometido e dar paz à sua consciência, ele inicia uma sequência de crimes sem volta, reconhecendo, assim, a incapacidade que o homem tem de lidar com sua natureza e de fugir de seu destino. ELENCO Macbeth: Marcello Antony Lady Macbeth: Claudio Fontana Duncan / Macduff: Helio Cicero Banquo / Dama de Companhia: Marco Antônio Pâmio Narrador: Carlos Morelli Bruxa 1 / Nobre: José Rosa Bruxa 2/ Malcolm / Ross: Marco Furlan Bruxa 3/ Donalbain / Angus / Velho / Mensageiro/ Porteiro: Rogério Brito FICHA TÉCNICA Texto – William Shakespeare. Tradução – Marcos Daud. Colaboração – Fernando Nuno. Direção e adaptação – Gabriel Villela. Assistência de Direção – César Augusto, Ivan Andrade e Rodrigo Audi. Figurinos – Gabriel Villela e Shicó do Mamulengo. Cenografia – Marcio Vinicius. Iluminação– Wagner Freire. Antropologia da voz- Francesca Della Monica. Direção de texto – Babaya. Musicalidade da cena – Ernani Maletta. Trilha Sonora – Gabriel Villela. Direção de Movimento – Ricardo Rizzo. Adereços- Shicó do Mamulengo e Veluma Pereira Apliques e patchwork – Giovanna Vilela. Costureira- Cleide Mezzacapa Hissa. Maquiagem para ensaio fotográfico - Eliseu Cabral. Assistência de Maquiagem para ensaio fotográfico- Patricia Barbosa. Coordenação do Ateliê- José Rosa e Veluma Pereira . Assistência de Cenografia – Julia Munhoz. Cenotécnicos- Jean Carlos e Evandro Nascimento. Diretor de Palco- Alex Peixoto. Operador de luz- Marcelo Violla. Operador de som – Camareira – Marlene Collé. Assessoria de Imprensa- Arteplural – Fernanda Teixeira. Fotografia- João Caldas. Assistência de fotografia – Andréia Machado. Fotografias de ensaio / making of – Dib Carneiro Neto e João Caldas. Programação Visual- Dib Carneiro Neto, Jussara Guedes e Suely Andreazzi. Assistente de Produção Julia Portella e Lucimara Santiago. Produção Executiva – Clissia Morais e Francisco Marques. Direção de Produção - Claudio Fontana – Produção Recife – Miguel Teixeira.
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